quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lucídia

Foragida das calçadas
urbana insanidade
igreja da sé
fórum joão Mendes
observadores gelados
e cinzas

senhora das repetições petições lições sessões
alimento do desprezo
a fome de olhar
onde estão todos?
violenta a própria mente
sua cabeça, sua vítima

um, dois, três croquis

três horas mais tarde

um, dois, três croquis

próprio dialeto
inteligível para poucos
murmúrios do passado
outros nomes para
as mesmas dores do português

a cidade mapa
no chão.
caminha caminha caminha caminha
sem ter onde nem porquê
só caminhos
direção sem nenhuma


esse rosto-história
precipício de aço-escória
Lúcida olha
o engarrrrraaaaafffffaaaammmmeeeeennnnnttooooo
uníssono sem rosto
cadê as almas?

perna na beirada do viaduto
poucos espectadores para Esta-mira
não, não, não me contenham
desabotoa a camisa

seios
pra são paulo

Arca dolorida

Cores no funeral
no plural das mágoas
A rua florida para o feriado religioso
esse meu pseudo ateísmo
São Judas ao lado do cartão Visa

encanto das senhoras
cada rosa em seu lugar
meticulosamente ganha vizinhas
os pés
curiosos pés das crianças
se atiçam em vão

carolas espumam para a garotada
pitbulls da fé
organizam o coretos de vozes
orações destroçadas
pecadores sem talento vocal
todos vão para o inferno tardio

cheiro de alfazema na rua
terços rosas brancos amarelos
um se destaca na multidão
crente
o terço do garoto fã da tristeza

emo-demo atestam
olhares de reprovação
carrega uma margarida
com a atenção de todos
lança a flor

um pouco de terra
um pouco de água
um pouco de vento
um pouco de tinta

fuga desesperada
rumo à arca de nóe do interior
uma espécie de cada flor
todos salvos do dilúvio

fica com saudades de tudo
do amor que não finda
só porque não
nos vemos

naufrágio da embarcação
se afogam
flores, sabores, amores
ficam as cores
eternas inspiradoras
natureza-viva
objeto e memórias
o resto é silêncio
bem sentimental, não?
morte
Vida
de esquina


a vista da janela
lua desgraça
tumulto opaco
massa de antenas mudas


comichão no indizível
é hora de prazear
camisa Hering
o pólo de solidão
a pele com fendas
perfuma-se na primeira marcha


um parque sem raízes
destino da grana na carteira
pouco verde-vivo
para os donos de camas sós

mais trinta e três flexões
católico de vinte e poucos
anos e centímetros
gel no liso cabelo longo
barba por fazer

palavras ralas
desejo acertado
economia de gestos e carícias
dois desafinados no afeto
primeira gemidor

respingos no toca-CDs
de um vermelho violento
a mão antes sexo
a mão agora despedida

olhos verdes
esbugalhados
somem o viço
silêncio espera George Michael enfermeiro

carteira desossada
notas esquálidas
fotos família infância
memória do longe

do tapa
rosto
pra lá
pai filho meu
nunca
viado
volto

visão turva
Fiat zero
volante manchado
mão esquerda
dedo esquerdo
ainda a marca

aliança
corre puto de filho
mais rápido
até o esconderijo dos perdidos

garoupa na coroa
pra que isso agora?
peixe nesse azul safado
pega no papel
deixa no seu epílogo
digitais quase defuntas

últimos segundos
termino assim
nada sentindo assim
morte e
vida
R$ 100,00
gozo

Amarelo preto vermelho

Proposta: descrever de forma "objetiva" um objeto qualquer

Todas as letras
maiúsculos débitos
menos 148,51 reais
para compra os antidores

no amarelo morto
- 301,66
para aprender o espanhol
o sonho de Madri
custa caro
viver sem se corromper

outubro, mais um mês de desgasto
cheque compensado de R$ 350,00
para descobrir que a ausência do poeta
absurdos R$ 38,00 por uma cueca

R$ 8,00 no HSBC Belas Artes
para saber Quanto Dura o Amor?
pouco, bem pouco
na sala deserta de cinema
sábado à noite
o salário e a esperança se despedem
a cada novo dia

Drogasil para emborrachar o gozo
a LOCA e VEGAS para buscar o prazer
da pista e das noites sem fim com meios
TNG e M.OFFICER para ficar na estica
CANDY Cabelereiros para bancar o moderno
vida numerosa de imagens e cifras, só mente

nessa simples conferência de débitos e créditos
do Banco do Brasil, das Dívidas minhas
do saque da Vila Mariana
que se apaga como esses caracteres
números, recordações, valores

o saldo final positivo
a existência precisa ter
Crédito Salário, Crédito Renovação, Limite Cheque Especial Classic, Juros, IOF, Leasing
vou lançar esse poema-extrato
consumir o resto do ordenado

imprimo a página três
resumo de meu histórico com sumi dor
melhor amassar, picotar, abandonar
iniciar do R$ 0,00
amarelo preto azul

sábado, 17 de outubro de 2009

Poética do não ser

Qual é o seu arquétipo? Tentem descobrir com a leitura do texto a seguir:

Nasci sem nome, sempre tive ojeriza a enfeitar o sofrimento. Certa vez a cigana ao ler minha mão, pobre coitada paga com míseros quatro reais, constatou que atraio paixões arrebatadoras, mas há dificuldades na consolidação dessas histórias. Se eu fosse Romeu certamente comeria todas as maças, principalmente as envenenadas. Um dia, ele se descobriu um vendaval de palavras, olhou para todos os lados e somente sobraram algumas pílulas laranjas em suas mãos delicadas. Olhares trocados em metrô, nas ruas sem iluminação, nos becos com nomes de políticos ilustres. Preencher lacunas, completar quebra-cabeças, sentimentos despedaçados pelo silêncio oculto. Sou vento e sou brisa, os manuais classificam como bipolaridade. Entrega-se, no passado, agora, busca cautela. Poeta sem forma e sem tempo. Invado o que é lacrado, busco a existência nua. Ele chega em um labirinto claustrofóbico, a vida não tem pé nem cabeça dizia a velhinha de Araraquara. Amar é...lembro do menininho e da menininha loira das figurinhas, putos, aqueles personagens me fizeram crer na ingenuidade do verbo transitivo. Sempre preparado para os fragmentos da dolor, “estou aqui por causa desse maldito...”, costuma berrar para todos os enfermeiros do hospital. Amante do século 18, paciente dos anos 2000, vou queimar Vinicius, riscar Chico, rasgar Drummond. Vou louvar Maysa, endeusar Cartola, Ro Ro e Piaf. Experiência alucinógena, amar é mesmo bem agridoce.

Eros a evitar

"O homem do conserto não vem?". Com essa frase tivemos que criar um texto no qual a frase se encaixasse. O resultado foi uma história triste, muito triste...risos

Eros a evitar
Um pesadelo estranho em que era alvejada por um tiro bem no peito a desperta. Com a camisola do piu-piu encharcada de suor e um hálito do capeta, faz as devidas verificações e percebe que ele continuava a bater perfeitamente, nem um vestígio de gota de sangue no chão de taco daquele apartamento antigo da região da República. Corre para o banheiro, começa o ritual de beleza diário, o barbeador gasto tira qualquer traço de pelo de seu corpo de 1,70. Detesta suas sobrancelhas grossas, o que lhe rendeu o apelido de Malu Ohana. Ficou viciada em afiná-las, até sobrar um rastro quase invisível no rosto quadrado, traços herdados dos avós paranaenses. “Malditas raízes pretas, não vou conseguir retocar a tempo, merda!”, confidencia para o espelho, o seu maior inimigo naquele momento. Sua aparência platinada, no auge dos 40 anos, já não rendia muitos elogios pela rua. Conformava-se com o seu atual parceiro, um cobrador de ônibus que ostentava um grande anel no dedo mindinho, com sua unha devidamente comprida para múltiplas e secretas funções. A mesa com dois pãezinhos murchos, um café preto ralo e uma manteiga de marca irreconhecível. Devorou-os com fúria e falta de etiqueta, 90 minutos: esse era o tempo decisivo que tinha para conquistar a razão dos seus delírios amorosos nas últimas semanas. Não sabe como se apaixonou por ele, nem é tão belo, mas o peito másculo, com a camisa com dois botões descuidadamente abertos, não saiu de seus pensamentos. A calvície era outro imenso charme, acostumou-se com a paisagem da cabeça-lua de seu pai, quando menina brincava de cavalinho nos ombros do velho, que morreu assassinado em uma discussão de boteco qualquer. Nunca trocou uma palavra com seu objeto de desejo, só conhecia seu cheiro: um odor adocicado misturado com desodorante Avanço. Também era muito fã do Victor Fasano, galã-modelo da famosa propaganda desse produto. Tinha feito uma faxina pesada no dia anterior e começou a sentir as dores violentas do agachamento para retirar a poeira mais fugidia. Da janela do banheiro avista o restaurante simplório da Rua Marquês de Itu, onde comeu um delicioso e inesquecível estrogonofe de frango com Renato, sua alma gêmea. Ela foi abandonada pelo lindo jovem de cabelos encaracolados quando repentinamente começou a emagrecer e a sentir uma dor incrível na garganta. Era leitora voraz de romances açucarados de autores anônimos e estava com um deles na mão no dia em que foi buscar o resultado de um simples exame de sangue: HIV positiva, quase morreu, desde então passou a se cuidar mais do que na época em que ganhava alguns trocados na madrugada fria da Rego de Freitas. Desde maio de 2001, todos os meses ia ao infectologista, os exames estão em ordem e seu nível de CD4 bem alto. Ajeita aquele órgão genital equivocado, coloca a calcinha vermelha de renda comprada na promoção de uma Loja Marisa. A campanhia toca 12 minutos antes do previsto, corre e chega quase sem fôlego à porta. Pelo olho mágico, não consegue enxergar muito, mas vê um vulto pequeno, redondo, de óculos fundo de garrafa e com grandes tetas. Era Formô, diminutivo de Formosura, sua colega desde o primeiro silicone. “O homem do conserto não vem?”. Semblante desolado, Formô também era apaixonada pelo encanador. “Desembunha, bee maluca!”. Ele morreu, se matou ontem em uma construção aqui perto. Em silêncio, fecha a porta, coloca a bermuda larga do marido, liga a televisão em algum programa de culinária. Desanimada, digita oito números no telefone: “Por favor, chega mais cedo em casa, vou fazer aquele bife acebolado que você adora”. Em vez da cozinha, dirige-se para o quarto, tira a pesada maquiagem e volta pra seus sonhos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Desencanto

Proposta: Durante 15 minutos ouvimos uma música de inspirações celtas e precisavámos escrever um texto no calor da hora.

Passava por uma cidade de poucas sombras, em um entardecer ao som de aves desorientadas. Ele, alto, um pouco corcunda, um pouco insatisfeito com os descaminhos do porvir apático. Mirava-o, sensível a cada passo desigual, ora firme, mas sempre desencatado. Adiante um pequeno grupo de idosos sorridentes encarava uma garota vestida de forma liberta de convencões têxteis e morais. O preto prevalece, em suas mãos sujas um tarô de cartas surradas. Com olhos exaustos da vida, se aproxima do rapaz de expressão incerta. "Qual é o seu futuro?", indaga. "Percorrer, sem correr", responde sem estranhar a inversão da pergunta o jovem estrala os dedos compulsivamente. A taróloga não alonga aquela conversa de pitadas surreais, os senhoras pararam de sorrir, mas os pássaros continuavam inquietos, sem direção. Ao cair da noite, um silêncio perturbador, aquele passante perdido, poucas palavras continuava de cabeça baixa, olhando fixamente a areia úmida, que já deve ter sido reluzente em outros verões.