sábado, 17 de outubro de 2009

Eros a evitar

"O homem do conserto não vem?". Com essa frase tivemos que criar um texto no qual a frase se encaixasse. O resultado foi uma história triste, muito triste...risos

Eros a evitar
Um pesadelo estranho em que era alvejada por um tiro bem no peito a desperta. Com a camisola do piu-piu encharcada de suor e um hálito do capeta, faz as devidas verificações e percebe que ele continuava a bater perfeitamente, nem um vestígio de gota de sangue no chão de taco daquele apartamento antigo da região da República. Corre para o banheiro, começa o ritual de beleza diário, o barbeador gasto tira qualquer traço de pelo de seu corpo de 1,70. Detesta suas sobrancelhas grossas, o que lhe rendeu o apelido de Malu Ohana. Ficou viciada em afiná-las, até sobrar um rastro quase invisível no rosto quadrado, traços herdados dos avós paranaenses. “Malditas raízes pretas, não vou conseguir retocar a tempo, merda!”, confidencia para o espelho, o seu maior inimigo naquele momento. Sua aparência platinada, no auge dos 40 anos, já não rendia muitos elogios pela rua. Conformava-se com o seu atual parceiro, um cobrador de ônibus que ostentava um grande anel no dedo mindinho, com sua unha devidamente comprida para múltiplas e secretas funções. A mesa com dois pãezinhos murchos, um café preto ralo e uma manteiga de marca irreconhecível. Devorou-os com fúria e falta de etiqueta, 90 minutos: esse era o tempo decisivo que tinha para conquistar a razão dos seus delírios amorosos nas últimas semanas. Não sabe como se apaixonou por ele, nem é tão belo, mas o peito másculo, com a camisa com dois botões descuidadamente abertos, não saiu de seus pensamentos. A calvície era outro imenso charme, acostumou-se com a paisagem da cabeça-lua de seu pai, quando menina brincava de cavalinho nos ombros do velho, que morreu assassinado em uma discussão de boteco qualquer. Nunca trocou uma palavra com seu objeto de desejo, só conhecia seu cheiro: um odor adocicado misturado com desodorante Avanço. Também era muito fã do Victor Fasano, galã-modelo da famosa propaganda desse produto. Tinha feito uma faxina pesada no dia anterior e começou a sentir as dores violentas do agachamento para retirar a poeira mais fugidia. Da janela do banheiro avista o restaurante simplório da Rua Marquês de Itu, onde comeu um delicioso e inesquecível estrogonofe de frango com Renato, sua alma gêmea. Ela foi abandonada pelo lindo jovem de cabelos encaracolados quando repentinamente começou a emagrecer e a sentir uma dor incrível na garganta. Era leitora voraz de romances açucarados de autores anônimos e estava com um deles na mão no dia em que foi buscar o resultado de um simples exame de sangue: HIV positiva, quase morreu, desde então passou a se cuidar mais do que na época em que ganhava alguns trocados na madrugada fria da Rego de Freitas. Desde maio de 2001, todos os meses ia ao infectologista, os exames estão em ordem e seu nível de CD4 bem alto. Ajeita aquele órgão genital equivocado, coloca a calcinha vermelha de renda comprada na promoção de uma Loja Marisa. A campanhia toca 12 minutos antes do previsto, corre e chega quase sem fôlego à porta. Pelo olho mágico, não consegue enxergar muito, mas vê um vulto pequeno, redondo, de óculos fundo de garrafa e com grandes tetas. Era Formô, diminutivo de Formosura, sua colega desde o primeiro silicone. “O homem do conserto não vem?”. Semblante desolado, Formô também era apaixonada pelo encanador. “Desembunha, bee maluca!”. Ele morreu, se matou ontem em uma construção aqui perto. Em silêncio, fecha a porta, coloca a bermuda larga do marido, liga a televisão em algum programa de culinária. Desanimada, digita oito números no telefone: “Por favor, chega mais cedo em casa, vou fazer aquele bife acebolado que você adora”. Em vez da cozinha, dirige-se para o quarto, tira a pesada maquiagem e volta pra seus sonhos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário