sábado, 17 de outubro de 2009

Poética do não ser

Qual é o seu arquétipo? Tentem descobrir com a leitura do texto a seguir:

Nasci sem nome, sempre tive ojeriza a enfeitar o sofrimento. Certa vez a cigana ao ler minha mão, pobre coitada paga com míseros quatro reais, constatou que atraio paixões arrebatadoras, mas há dificuldades na consolidação dessas histórias. Se eu fosse Romeu certamente comeria todas as maças, principalmente as envenenadas. Um dia, ele se descobriu um vendaval de palavras, olhou para todos os lados e somente sobraram algumas pílulas laranjas em suas mãos delicadas. Olhares trocados em metrô, nas ruas sem iluminação, nos becos com nomes de políticos ilustres. Preencher lacunas, completar quebra-cabeças, sentimentos despedaçados pelo silêncio oculto. Sou vento e sou brisa, os manuais classificam como bipolaridade. Entrega-se, no passado, agora, busca cautela. Poeta sem forma e sem tempo. Invado o que é lacrado, busco a existência nua. Ele chega em um labirinto claustrofóbico, a vida não tem pé nem cabeça dizia a velhinha de Araraquara. Amar é...lembro do menininho e da menininha loira das figurinhas, putos, aqueles personagens me fizeram crer na ingenuidade do verbo transitivo. Sempre preparado para os fragmentos da dolor, “estou aqui por causa desse maldito...”, costuma berrar para todos os enfermeiros do hospital. Amante do século 18, paciente dos anos 2000, vou queimar Vinicius, riscar Chico, rasgar Drummond. Vou louvar Maysa, endeusar Cartola, Ro Ro e Piaf. Experiência alucinógena, amar é mesmo bem agridoce.

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