quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ser mãos atadas

Proposta: Em pouco mais de 10 minutos tinhamos que ficar de mãos dadas com o colega do lado, pessoa totalmente desconhecida. Veja o resultado dessa experiência.

Ser mãos atadas
Mão sem identidade, sem um dono de quem eu conheça os mais doloridos segredos. Lembrei, sei que são colocadas massa ou será que são no dinheiro do caixa? Mãos, dedos, esse toque desconhecido, o que será que a outra mão articula? Porque tantas interrogações, minha mão está dormente, vontade alucinada de ser também destro. Exercício..., toca o celular, não posso inutilizar minha mão, malditos aparelhos tecnológicos. Para de pensar em tua mão, a outra que te interessa, mas afinal as mãos são tão diferentes em suas igualdades. Quantas histórias passaram por esses dedos que inesperadamente agora estão unidos aos meus. Ao levantar jamais imaginei...mãos, grandes feitos e muitas guerras foram efetivadas pela força delas. Meu braço dói cada vez mais, será que escrever sobre a mão alheia traz novos significados para a trajetória de minha mão? Mão solitária, mão de traços fortes. Sem mão, quero minha mão de volta, repousá-la no conforto da insegurança de uma mão supostamente pouco utilizada. OK, volto a pensar nessa mão, minhas mãos suam, agora sinto um pudor quanto a isso, mão livre, de voltar a seu lugar de origem, um vácuo no espaço, algo inusitado para tempos de mãos ardorosamente separadas, mão de pedir, de receber, de acolher, de entreter, de dar prazer, a mão do adeus.

Duas pra lá, duas pra cá

A partir da identificação com um animal deveríamos escrever uma história com o bicho em questão. Veja o que rendeu, super baseado em fatos reais (risos)

O bichano cinzento mira a ambos com garras nada amistosas. Em meio aos seus miados círculos entre os livros de história e filosofia de um, de poesia e literatura marginal do outro. No caminho encontra Rimbaud, Fernando Pessoa, Hilda Hilst, Glauco Mattoso, nem se importa. Aqueles grandes olhos de desespero têm dois protagonistas, o casal, seis anos depois, final de relacionamento. CDs, angústias, roupas, saudades, sorrisos, lágrimas e escova de dente já haviam sido despachados em caixas de papelão emprestadas pelo dono do mercadinho. O destino: um caminhão velho com placa de Catanduva, 400 km da capital. “Como vamos fazer com esse gato filho da puta”, esbravejou o mais alto e sem barba. “Filho da puta? Eles cortam minhas bolas, me privam do cio de uma fêmea dengosa, se arriscam em um relacionamento aberto e eu quem sou filho da puta?”, reflete o gato em um típico dia de cão. Ocupados em dividir a coleção de clássicos do Fellini, a disputa era ferrenha por La Nave Vá e Oito e Meio, pouca atenção foi dada à trajetória sinuosa do pequeno Pandoro, que arranhava levemente as fotos de Paraty, Petrópolis, Natal e Ano Novo. O rabo, antes em riste, forma um sinal de interrogação. A buzina escandalosa avisa que é hora da partida.

Oscar Wilde by Rodrigo Eloi

Proposta: mudar o foco narrativo de algum conto. Escolhi um trecho de conto de Oscar Wilde. Nem um pouco desafiador...

Conto: O GIGANTE EGOÍSTA – OSCAR WILDE
Original do autor:
Todas as tardes, ao voltarem da escola, as crianças costumavam brincar no jardim do Gigante. Era um jardim grande e adorável, com grama verde e macia. Aqui e ali, por entre a grama, havia belas flores, iguais às estrelas. Havia doze pessegueiros que na estação primaveril irrompiam em delicados botões rosados e perolados, e no outono, ficavam carregados de frutas saborosas. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão docemente que as crianças começavam interromper seus jogos para ouvi-los. “Como somos felizes aqui!”, elas diziam umas às outras.

Minha proposta:
Conto:
A grande solidão
Sempre quando o pôr-do-sol se aproxima, uma agitação toma conta da pequena garota de cabelos encaracolados, vermelhos, como o tom que mancha o céu no fim das tardes daquela pequena cidade. Ela abandona os livros pesados dos primeiros aprendizados e segue apressada em direção ao único local de seus sonhos reais: o jardim sem dono. Lá, a grama tem um verde vivo que alimenta suas brincadeiras de casinha. As flores derramam aromas coloridos por todos os cantos, há outras crianças naquele espaço, mas a filha caçula do verdureiro prefere o isolamento, assim pode conhecer melhor todas as variedades de frutas daquele terreno fértil. Essa é a história que conta aos seus pais. A versão verdadeira dos fatos, quem me contou foi um passarinho de que as outras crianças pertencentes à nobreza daquele lugar tão parecido com outros milhares de campos da Europa não incluem nossa amável protagonista em seus jogos de disputas. “Como somos felizes aqui!”, diziam quando a solitária menina se aproximava dos vários grupinhos, em uma provocação dolorida dessa fase inesquecível da vida.

Essa luz só pode ser o abajur

“Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso Nome...” Toda manhã, pontualmente às nove horas, desperto com a mesma ladainha. Finjo um sono pesado e avisto-a naquela poltrona antiga, com seus 55 anos, cabelos grisalhos, pijama, terço rosa nas duas mãos cansadas. Na quinta repetição, minha paciência se esgota: “Por que diabos você não reza na cozinha?”. A resposta chega num tom de voz sereno desconcertante: “Porque a graça alcançada não seria a mesma”. Penso em um milhão de réplicas, mas decido virar as costas e dormir por mais alguns minutos. Acordo com o cheiro de canja, uma tigela forrada do líquido amarelo. “Não aguento mais comer essa porra!”, falo todos os dias. Desde que descobri o câncer de intestino, há um ano, minha dieta está restrita a nada sólido. Sinto uma dor apavorante, a quimioterapia transformou a aparência. Eu sempre muito vaidoso dos longos fios cacheados, que agora trocam o couro cabeludo pelo travesseiro de pena de ganso. Quando Ela surgiu em minha vida fazia um sucesso incrível com as mulheres. Bem charmoso, sociólogo da USP, fã de Bergman só para impressionar, um crápula de lábia infalível. Nos anos 70 experimentei todos os verbos da época (fumar, cheirar, picar, trepar, protestar), vivia em reuniões do movimento estudantil, contudo as razões desse pseudo anarquista estavam concentradas na zona genital das lindas ninfetas politizadas. Com o LSD passei a “crer” em duendes e anjos. Certa vez após tomar chá à base de fitas cassetes juro que brinquei de ciranda cirandinha com Jesus ou será que foi o João, riporonga suicida do curso de letras? Uma colherada, duas colheradas, na terceira...sinto ânsia, paro e quase vomito. A última vez que pisei em uma balança o ponteiro eletrônico marcou 57 quilos. Casamos alguns dias depois do falecimento de Tancredo, lembro com perfeição da data, não pela cerimônia religiosa, da qual participei somente por causa do fervor religioso da mãe carola dela, maldita velha devota de São Judas Tadeu, a igreja vazia. Naqueles tempos de Sarney presidente reforcei meu desencanto por todos. Desde moleque em São José do Rio Preto desprezava o mundo de faz-de-conta da bíblia, perdi as contas dos castigos e puxões de orelhas da dona Maria, professora de catequese. Em uma de suas aulas enfadonhas, perguntei se Adão transou com suas filhas para gerar a humanidade. A palmatória já conhecia sua função. “Que DVD você quer ver: A Fraternidade é Vermelha ou A Paixão de Cristo?” Ela sabia que A Paixão de Cristo era meu pecado pop inconfessável. Amamos esse filme, por razões bem diferentes, ela gosta ainda mais das canções bregas e sagradas do Roberto Carlos. Poucas vezes fui verdadeiramente carinhoso com Ela, pelo contrário, reclamava de seus seios flácidos e do acúmulo de gordura na região das ancas, minha esterilidade sacrificou o sonho de maternidade dela. “Prefiro ‘Morangos Silvestres’, somente a magistral cena do pesadelo”. Daqui a dois dias vou morrer, descubro que sou fã mesmo de Bergman. Vejo da janela a Santa Casa de Misericórdia, perto daqueles edifícios de tijolinhos o sol começa sua despedida. A deus, meu eterno desprezo por todos. O relógio avisa: 10 da noite, ela se aproxima, vê meus olhos cerrados, desliga o abajur, começo mais uma encenação. “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”, sim, sim, Ela é uma santa.

Sem título

A proposta: escrever uma carta de suícidio na persona feminina. Moleza, não? (risos)

Aquele cheiro gostoso de café fresquinho já não me encanta há algumas semanas. Despertei mais tarde do que o habitual, os cachorros da vizinha estranhamente não latiram nessa manhã. O espelho denuncia a melancolia da aparência: olheiras profundas e escuras, o cabelo tingido de um vermelho flamejante não esconde as raízes da brancura gélida de 42 anos completados semana passada num churrasco familiar em nosso agradável sítio. A casa deserta, nenhum vestígio de presença humana, um silêncio ruidoso perturba os pensamentos, a única coisa que causa alguma estranha sensação de alegria são os Smurfs estampados na camisola verde-mar da Júlia, largada de forma descuidada no piso do banheiro. Essa carta não pretende explicar meu ato nem encontrar responsáveis pelo grande abatimento que tomou conta de minha maneira de ser. Nasci triste, o que provocava delirante regozijo nas garotas de minha idade sempre me causou indiferença. Primeiro sutiã, o beijo no menino mais gato da escola, formatura do curso de letras, casamento em uma tarde ensolarada com um homem feio, o nascimento do primeiro, do segundo, do terceiro filho, o resultado fantástico da primeira plástica nos seios, nada, nada disso provocou um encantamento genuíno. A felicidade me parecia algo muito egoísta, alienante, desprezível. Gosto dos meus seios, ainda estão rijos, apontando para o horizonte, suportaram as mamadas suculentas e demoradas de Júlia, Pedro e Renan. Amo meus filhos, mas a desolação supera a suposta nobreza desse sentimento. Completei 18 anos de casamento com o Otávio, em todos os dias de minha vida fui apaixonada, embora há muito tempo os dedos, os meus, e os brinquedinhos guardados na caixa de fotos me dão prazer muito superior em comparação com suas investidas cada vez mais escassas após o último telejornal. O potente coquetel de remédios já colocado sob a mesa ao lado do imenso espelho onde agora me olho escrevendo essas palavras de despedida. Nua, quero ser encontrada assim, completamente nua, deitada em uma cama. Um suicídio bem convencional, precisaria ser ousada em meu epílogo, não vou deixar mensagens individuais. Sei que minha atitude causará sequelas em todos vocês, porém foi uma decisão amadurecida pela mesmice do cotidiano e pela incerteza de uma vida sem mim. Poucas lágrimas nessa folha de caderno velho, por favor, me enterrem no jazigo onde estão os corpos de meus avós com aquele vestido puído do Natal do ano retrasado (ele está em uma embalagem preta no meu guarda-roupa). Os ventos do cemitério do Araçá sempre me trouxeram uma inexplicável serenidade, não coloque fotos em meu túmulo, quero ser eternamente anônima. Meninos, valorizem cada instante de felicidade. Otávio, você é um homem bom, não desista de ter uma companheira dedicada. Puxa, não resisti aos recados, não procurem segredos, minhas angústias, lágrimas e tristezas sempre tiveram uma existência secreta, uma morta pode ser contraditória, no lugar para onde vou espero que não me cobrem coerência.

Inferno tardio

Estranha a sequência de placas: “Sejam bem-vindos” e “Agradecemos a preferência, volte sempre”. Aloja-se em uma fila interminável com variedade de tipos impressionante. Um anjo de cabelos tingidos de forte verde amazônico e dois piercings em um dos mamilos lidera pacificamente manifestação em prol de condições mais dignas no purgatório, que fica no andar de baixo de onde ele se encontra. Um moço com peruca acinzentada, nariz adunco e olhar sereno nota a expressão de dúvida e acalenta sua interrogação: “Não tem jeito, todas as regras, leis, decisões importantes são tomadas por aqui”. Grosseiro, não agradece a informação e não pede desculpas ao esbarrar em uma adolescente com a camiseta do filme Amélie Poulain, entregadora de papéis com os telefones de escritores para a redação de obituários caprichados e herméticos, além de cartas psicografadas com requintes gramaticais e poéticos.
A ausência de bebidas, dinheiro, Word, drogas pesadas e palavrões causa um imenso desconforto e vasta lacuna. De repente, uma frustração invade aquela cabeça despedaçada por um tiro de fuzil. Que assepsia mais irritante! A abundância de esterilização estranhamente trouxe à tona a frase símbolo de uma ex-amiga que adorava bancar a polêmica: “O paraíso pra mim seria um monte de paus duros, mulheres de pernas arreganhadas e montanhas de cocaína”.
Trinta anos desperdiçados em uma existência oca, rala, sem grandes pretensões e escassos encantamentos. Tinha uma aparência muito bela, embora não seguisse nenhum cuidado especial com o corpo e a pele, pelo contrário, seus excessos impressionavam aos amigos notívagos, alcoólatras e promíscuos. Ardiloso com as palavras, essa qualidade lhe rendeu algum dinheiro e fama como escritor premiado de livros infantis. Abominava o amor, mesmo não precisando se encantava com as possibilidades do sexo pago. “Acredito mais nos putos do que nos apaixonados”, era o discurso predileto nas mesas de bares e nos almoços com os poucos colegas da editora.
De longe, avista uma figura conhecida: o tio, empresário da noite, que cometeu suicídio besta no Dia dos Namorados. Ao acelerar o possante veículo rumo a um poste acabou com seu carro novo, sua vida e a de sua esposa por um motivo trivial: a negação da compra de um maço de cigarros qualquer em um boteco infestado de machões fétidos. Ele não possuía muito assunto com o irmão de seu pai, afinal de contas o parente era distante e o ponto final do tio aconteceu antes de seu primeiro choro na maternidade humilde do Tatuapé.
Invade uma espécie de sala de espera silenciosa, onde reina uma trilha sonora new wave, bem anos 80. Saudades daquele rock indie inglês que ouvia para impressionar algumas garotas metidas a culturetes. Esboça um gemido forte, mas é contido por uma penumbra e lançado para um túnel sem fim aparente. Seu relógio importado perde a função, aquelas infernices o deixam sem rumo. Retorna para o jardim da infância, lembra das brincadeiras daqueles autênticos capetas mirins por causa da calça curta e esgarçada, o que rendeu gozações por um ano inteiro.
Escurece, em chamativas luzes de néon rosadas, um lugar tumultuado atiça sua curiosidade. Ele caminha rapidamente em direção àquele barulhento espaço em busca de finalmente encontrar algum tipo de diversão. Na portaria recebe uma comanda com todos os anos de sua vida, de 1980 a 2010. “Já esperávamos sua visita, a senha é CEU 2001, o tempo de espera é de 280 minutos. Enquanto espera há computadores conectados somente a sites de relacionamento pessoal para comprovar sua popularidade pós-morte”. “O inferno são os outros”, repentinamente se lembra da frase do Sartre. Detestava filosofia, ainda mais os existencialistas, contudo ficou extasiado com a sonoridade da combinação de fonemas ao ler essa máxima quando contava pouco mais de 13 anos. Naquela fase era fascinado pelos quadrinhos do Hellboy e pelos desenhos do Pica-Pau.
Diabos! Nem em seus tempos de office boy encarando dezenas de filas de banco levou tanto tempo para ser atendido. “A deus, lugar cruel!”. “Blasfêmia” clama em alto volume uma voz desconhecida. Escorregou e bateu com força a nuca no chão pedregoso, desfaleceu. De longe um chato zumbido se transforma em um uníssono de orações, louvações, verdadeira overdose de pais-nossos e ave-marias. Logo após, aplausos vibrantes e o agradecimento pela presença de todos na missa de sétimo dia de Fátima Aparecida. Reconheceu aquela voz frágil e trêmula, era a de sua irmã caçula.
Pula do banco desconfortável daquela igreja de periferia paulistana. A poluição sonora da vizinhança acanha a voz e o sermão do padre velho e cansado. Desperta em prantos, olha ao redor e vê desesperado um mar de rostos anônimos e outros bem conhecidos que censuram seus espasmos ruidosos. Aquela cruz sofrida e as imagens de santos aflitos provocam um temor horripilante, os mais solidários o levam da igreja. Um copo americano com muita água e pouco açúcar, uma placa de trânsito enferrujada perto do bar, paraíso e inferno ficam na mesma direção.

Um vento de prosa

Não suporto a ideia de explicar o processo de criação literária, mas cabe uma "nota de altopé" (risos). João Carrascoza, excelente contista e meu incentivador literário, sugeriu um texto a partir do encontro inusitado com o autor de meu livro predileto: veja o resultado da prosa com Graciliano Ramos:


Aquele vestuário urbano não combina com a aridez do sertão nordestino. Não se recorda da viagem até lá. Despreza qualquer tipo de explicação, há muito se sente marionete do destino. Muito alto, um pouco corcunda, de óculos escuros, o rosto jovial quase coberto por uma barba espessa e totalmente negra que contrasta com a pele branca torturada pelo sol escaldante. Os habitantes locais miram curiosos essa figura esguia com um bloco de anotação trêmulo e estrangeiro. O relógio empoeirado da delegacia denuncia o fim da tarde, ondas de urubus, até pouco tempo atrás em voos preguiçosos, agitam-se perto de uma gigantesca nuvem cinzenta estática. Muitos olham para o alto, estão incrédulos, desacreditam dos temporais e das previsões meteorológicas, vivem como podem o hoje, não esperam nada do céu muito menos da terra, não há nem recordação do barulho dos pingos em queda dos telhados. Poucos minutos após um vendaval alaranjado, meninos mais novos, meninos mais velhos e meninos idosos buscam abrigo no bar mais próximo. Resolvo segui-los, entro no ambiente e tropeço em uma cachorra magrela, pulguenta e manca, de olhar pedinte. Me desequilibro, busco apoio na mesa de madeira gasta e por pouco não derrubo a máquina de escrever antiquíssima e o copo pequeno de café frio. Um resmungão alto, peço desculpas insistentemente, lembro daquele senhor escritor de expressão sisuda, poucas rugas, cigarro imponente na mão esquerda. Memória traiçoeira e peçonhenta, como é o sobrenome do meu interlocutor? Mesmo ambos aborrecidos, começamos um diálogo frívolo. Ele estranha meu sotaque, o excesso de eses, falo da infância na periferia da Grande São Paulo. Ramos!!! Quando a prosa chega na literatura, somos sempre interrompidos por outros personagens. O teto improvisado do local não suporta a violência da tempestade, goteiras formam um coro da natureza. Uma enxurrada de perguntas: Por que raios você não poupou a Baleia? Um trovão fala mais alto, não compreendo toda sua frase, com exceção de: “os homens ladram, todos somos essencialmente feras”. Reclamo da privação de solidariedade, da esterilidade de bons sentimentos do seu livro ilustre. Uma manada de soldados amarelos dificulta a audição: “final feliz é um escapismo dos tolos para os mais tolos” ouço em meio a uma discussão sobre memórias do cárcere dos guardas da ordem e do progresso. O desespero de alguns moradores com a perda de seus imóveis improvisados impede a compreensão exata de mais um dialogo rápido, certeiro. Após a trégua das nuvens a terra rachada embebida da tempestade torrencial gera uma fisionomia desoladora àquele espaço esquecido. O velho Graça franze a testa: “Não há refúgio seguro para a Angústia” diz antes de um último suspiro do vento esparramar todo o trabalho da sua obra em construção. “Um mundo coberto de folhas”, resigna-se.

sábado, 19 de setembro de 2009

Continuar é preciso

Com uma apropriação descarada do imenso Fernando Pessoa inicio meu novo blog. O anterior "Benjamin" era muito pomposo e totalmente desatualizado. Com o início do curso de Criação Literária, em agosto deste ano, se havia uma fuga desesperada da escrita, nas últimas semanas o encantamento pelas letras retomou com uma deliciosa violência. Corrigi o relapso com as palavras, voltei a me enamorar pelas vogais e consoantes. Após o início da oficina literária, percebi finalmente assumi que era um escritor pedinte nesse programador cultural que deseja ser ator-diretor de cinema-roteirista-modelo, etc (risos). O reencontro com as frases, os diálogos em meu novo teclado, naquele em que ainda não consigo encontrar o ponto de interrogação (sempre acreditei nas ironias do destino e da ortografia) me forçam a adentrar em outros universos inexplorados (o inconsistente comanda minhas primeiras tentativas literárias). Essa é uma das razões da criação deste blog e nem é a principal. Volto a repetir que nada é definitivo quando se fala com um canceriano, jornalista desencantado, escritor em gestação, talvez um dramaturgo, um cronista, um roteirista, um contista, um atrapalhado tateando um lugar, uma escolha, um detalhe. Para além do exercício textual, do delete do que parece inconveniente ou do que não pode ser público, existe a necessidade urgente de me expressar, de me sentir tocado com energias tão díspares, com o carinho virtual dos amigos. Sou um carente assumido, daqueles com carteirinha e participação ativa no sindicato da categoria. Contudo, um alerta importante: deixarei os dedos e a mente livres nesses raros momentos de tentativas de autoconhecimento. Perdoe-me a nova regra ortográfica, vou tentar segui-la, mas ela não aprisionará meus pensamentos. Mesmo diante da carência revelada, não tenho grandes preocupações se serei lido ou comentado, mas claro que seria interessante. Sou uma pessoa de contradições, outra confissão que já antecipo. Poética do nãoser já dá seus primeiros passos no campo da ambiguidade, a negação muitas vezes me parece a melhor forma de nascimento ou de renascimento (gosto dessa ideia, acordar é começar do zero). Isso serve para a conexão com as diversas linguagens artísticas e cotidianas, da vida nossa do dia a dia: (cinema - o encanto arrebatador -, teatro – o impacto presenciado, artes plásticas – a dor e a cor reunidas), amor (esse vício fascinante), família e amigos (necessários e queridos), profissão, existência e resistência. Certamente causarei alguns curtos-circuitos e choques de alta tensão em minhas reflexões e textos, muitos deles provocativos. Choques, desde que abaixo de 120 volts, podem tirar da letargia e alterar a apatia. Ok, última confissão: aprecio rimas!