quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Inferno tardio

Estranha a sequência de placas: “Sejam bem-vindos” e “Agradecemos a preferência, volte sempre”. Aloja-se em uma fila interminável com variedade de tipos impressionante. Um anjo de cabelos tingidos de forte verde amazônico e dois piercings em um dos mamilos lidera pacificamente manifestação em prol de condições mais dignas no purgatório, que fica no andar de baixo de onde ele se encontra. Um moço com peruca acinzentada, nariz adunco e olhar sereno nota a expressão de dúvida e acalenta sua interrogação: “Não tem jeito, todas as regras, leis, decisões importantes são tomadas por aqui”. Grosseiro, não agradece a informação e não pede desculpas ao esbarrar em uma adolescente com a camiseta do filme Amélie Poulain, entregadora de papéis com os telefones de escritores para a redação de obituários caprichados e herméticos, além de cartas psicografadas com requintes gramaticais e poéticos.
A ausência de bebidas, dinheiro, Word, drogas pesadas e palavrões causa um imenso desconforto e vasta lacuna. De repente, uma frustração invade aquela cabeça despedaçada por um tiro de fuzil. Que assepsia mais irritante! A abundância de esterilização estranhamente trouxe à tona a frase símbolo de uma ex-amiga que adorava bancar a polêmica: “O paraíso pra mim seria um monte de paus duros, mulheres de pernas arreganhadas e montanhas de cocaína”.
Trinta anos desperdiçados em uma existência oca, rala, sem grandes pretensões e escassos encantamentos. Tinha uma aparência muito bela, embora não seguisse nenhum cuidado especial com o corpo e a pele, pelo contrário, seus excessos impressionavam aos amigos notívagos, alcoólatras e promíscuos. Ardiloso com as palavras, essa qualidade lhe rendeu algum dinheiro e fama como escritor premiado de livros infantis. Abominava o amor, mesmo não precisando se encantava com as possibilidades do sexo pago. “Acredito mais nos putos do que nos apaixonados”, era o discurso predileto nas mesas de bares e nos almoços com os poucos colegas da editora.
De longe, avista uma figura conhecida: o tio, empresário da noite, que cometeu suicídio besta no Dia dos Namorados. Ao acelerar o possante veículo rumo a um poste acabou com seu carro novo, sua vida e a de sua esposa por um motivo trivial: a negação da compra de um maço de cigarros qualquer em um boteco infestado de machões fétidos. Ele não possuía muito assunto com o irmão de seu pai, afinal de contas o parente era distante e o ponto final do tio aconteceu antes de seu primeiro choro na maternidade humilde do Tatuapé.
Invade uma espécie de sala de espera silenciosa, onde reina uma trilha sonora new wave, bem anos 80. Saudades daquele rock indie inglês que ouvia para impressionar algumas garotas metidas a culturetes. Esboça um gemido forte, mas é contido por uma penumbra e lançado para um túnel sem fim aparente. Seu relógio importado perde a função, aquelas infernices o deixam sem rumo. Retorna para o jardim da infância, lembra das brincadeiras daqueles autênticos capetas mirins por causa da calça curta e esgarçada, o que rendeu gozações por um ano inteiro.
Escurece, em chamativas luzes de néon rosadas, um lugar tumultuado atiça sua curiosidade. Ele caminha rapidamente em direção àquele barulhento espaço em busca de finalmente encontrar algum tipo de diversão. Na portaria recebe uma comanda com todos os anos de sua vida, de 1980 a 2010. “Já esperávamos sua visita, a senha é CEU 2001, o tempo de espera é de 280 minutos. Enquanto espera há computadores conectados somente a sites de relacionamento pessoal para comprovar sua popularidade pós-morte”. “O inferno são os outros”, repentinamente se lembra da frase do Sartre. Detestava filosofia, ainda mais os existencialistas, contudo ficou extasiado com a sonoridade da combinação de fonemas ao ler essa máxima quando contava pouco mais de 13 anos. Naquela fase era fascinado pelos quadrinhos do Hellboy e pelos desenhos do Pica-Pau.
Diabos! Nem em seus tempos de office boy encarando dezenas de filas de banco levou tanto tempo para ser atendido. “A deus, lugar cruel!”. “Blasfêmia” clama em alto volume uma voz desconhecida. Escorregou e bateu com força a nuca no chão pedregoso, desfaleceu. De longe um chato zumbido se transforma em um uníssono de orações, louvações, verdadeira overdose de pais-nossos e ave-marias. Logo após, aplausos vibrantes e o agradecimento pela presença de todos na missa de sétimo dia de Fátima Aparecida. Reconheceu aquela voz frágil e trêmula, era a de sua irmã caçula.
Pula do banco desconfortável daquela igreja de periferia paulistana. A poluição sonora da vizinhança acanha a voz e o sermão do padre velho e cansado. Desperta em prantos, olha ao redor e vê desesperado um mar de rostos anônimos e outros bem conhecidos que censuram seus espasmos ruidosos. Aquela cruz sofrida e as imagens de santos aflitos provocam um temor horripilante, os mais solidários o levam da igreja. Um copo americano com muita água e pouco açúcar, uma placa de trânsito enferrujada perto do bar, paraíso e inferno ficam na mesma direção.

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