quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Essa luz só pode ser o abajur
“Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso Nome...” Toda manhã, pontualmente às nove horas, desperto com a mesma ladainha. Finjo um sono pesado e avisto-a naquela poltrona antiga, com seus 55 anos, cabelos grisalhos, pijama, terço rosa nas duas mãos cansadas. Na quinta repetição, minha paciência se esgota: “Por que diabos você não reza na cozinha?”. A resposta chega num tom de voz sereno desconcertante: “Porque a graça alcançada não seria a mesma”. Penso em um milhão de réplicas, mas decido virar as costas e dormir por mais alguns minutos. Acordo com o cheiro de canja, uma tigela forrada do líquido amarelo. “Não aguento mais comer essa porra!”, falo todos os dias. Desde que descobri o câncer de intestino, há um ano, minha dieta está restrita a nada sólido. Sinto uma dor apavorante, a quimioterapia transformou a aparência. Eu sempre muito vaidoso dos longos fios cacheados, que agora trocam o couro cabeludo pelo travesseiro de pena de ganso. Quando Ela surgiu em minha vida fazia um sucesso incrível com as mulheres. Bem charmoso, sociólogo da USP, fã de Bergman só para impressionar, um crápula de lábia infalível. Nos anos 70 experimentei todos os verbos da época (fumar, cheirar, picar, trepar, protestar), vivia em reuniões do movimento estudantil, contudo as razões desse pseudo anarquista estavam concentradas na zona genital das lindas ninfetas politizadas. Com o LSD passei a “crer” em duendes e anjos. Certa vez após tomar chá à base de fitas cassetes juro que brinquei de ciranda cirandinha com Jesus ou será que foi o João, riporonga suicida do curso de letras? Uma colherada, duas colheradas, na terceira...sinto ânsia, paro e quase vomito. A última vez que pisei em uma balança o ponteiro eletrônico marcou 57 quilos. Casamos alguns dias depois do falecimento de Tancredo, lembro com perfeição da data, não pela cerimônia religiosa, da qual participei somente por causa do fervor religioso da mãe carola dela, maldita velha devota de São Judas Tadeu, a igreja vazia. Naqueles tempos de Sarney presidente reforcei meu desencanto por todos. Desde moleque em São José do Rio Preto desprezava o mundo de faz-de-conta da bíblia, perdi as contas dos castigos e puxões de orelhas da dona Maria, professora de catequese. Em uma de suas aulas enfadonhas, perguntei se Adão transou com suas filhas para gerar a humanidade. A palmatória já conhecia sua função. “Que DVD você quer ver: A Fraternidade é Vermelha ou A Paixão de Cristo?” Ela sabia que A Paixão de Cristo era meu pecado pop inconfessável. Amamos esse filme, por razões bem diferentes, ela gosta ainda mais das canções bregas e sagradas do Roberto Carlos. Poucas vezes fui verdadeiramente carinhoso com Ela, pelo contrário, reclamava de seus seios flácidos e do acúmulo de gordura na região das ancas, minha esterilidade sacrificou o sonho de maternidade dela. “Prefiro ‘Morangos Silvestres’, somente a magistral cena do pesadelo”. Daqui a dois dias vou morrer, descubro que sou fã mesmo de Bergman. Vejo da janela a Santa Casa de Misericórdia, perto daqueles edifícios de tijolinhos o sol começa sua despedida. A deus, meu eterno desprezo por todos. O relógio avisa: 10 da noite, ela se aproxima, vê meus olhos cerrados, desliga o abajur, começo mais uma encenação. “Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra”, sim, sim, Ela é uma santa.
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Interessante como você mistura alguns fragmentos da realidade com a sua ficção. Não sei se foi intencional, mas por vezes visualizei alguns cenários próximos, imaginei personagens conhecidos, uma mistura perturbante. Por fim, ainda bem que tudo é fruto da mais pura imaginação. Parabéns!!!
ResponderExcluirGostei da ironia. Você conseguiu tirar humor de uma situação trágica.
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