A proposta: escrever uma carta de suícidio na persona feminina. Moleza, não? (risos)
Aquele cheiro gostoso de café fresquinho já não me encanta há algumas semanas. Despertei mais tarde do que o habitual, os cachorros da vizinha estranhamente não latiram nessa manhã. O espelho denuncia a melancolia da aparência: olheiras profundas e escuras, o cabelo tingido de um vermelho flamejante não esconde as raízes da brancura gélida de 42 anos completados semana passada num churrasco familiar em nosso agradável sítio. A casa deserta, nenhum vestígio de presença humana, um silêncio ruidoso perturba os pensamentos, a única coisa que causa alguma estranha sensação de alegria são os Smurfs estampados na camisola verde-mar da Júlia, largada de forma descuidada no piso do banheiro. Essa carta não pretende explicar meu ato nem encontrar responsáveis pelo grande abatimento que tomou conta de minha maneira de ser. Nasci triste, o que provocava delirante regozijo nas garotas de minha idade sempre me causou indiferença. Primeiro sutiã, o beijo no menino mais gato da escola, formatura do curso de letras, casamento em uma tarde ensolarada com um homem feio, o nascimento do primeiro, do segundo, do terceiro filho, o resultado fantástico da primeira plástica nos seios, nada, nada disso provocou um encantamento genuíno. A felicidade me parecia algo muito egoísta, alienante, desprezível. Gosto dos meus seios, ainda estão rijos, apontando para o horizonte, suportaram as mamadas suculentas e demoradas de Júlia, Pedro e Renan. Amo meus filhos, mas a desolação supera a suposta nobreza desse sentimento. Completei 18 anos de casamento com o Otávio, em todos os dias de minha vida fui apaixonada, embora há muito tempo os dedos, os meus, e os brinquedinhos guardados na caixa de fotos me dão prazer muito superior em comparação com suas investidas cada vez mais escassas após o último telejornal. O potente coquetel de remédios já colocado sob a mesa ao lado do imenso espelho onde agora me olho escrevendo essas palavras de despedida. Nua, quero ser encontrada assim, completamente nua, deitada em uma cama. Um suicídio bem convencional, precisaria ser ousada em meu epílogo, não vou deixar mensagens individuais. Sei que minha atitude causará sequelas em todos vocês, porém foi uma decisão amadurecida pela mesmice do cotidiano e pela incerteza de uma vida sem mim. Poucas lágrimas nessa folha de caderno velho, por favor, me enterrem no jazigo onde estão os corpos de meus avós com aquele vestido puído do Natal do ano retrasado (ele está em uma embalagem preta no meu guarda-roupa). Os ventos do cemitério do Araçá sempre me trouxeram uma inexplicável serenidade, não coloque fotos em meu túmulo, quero ser eternamente anônima. Meninos, valorizem cada instante de felicidade. Otávio, você é um homem bom, não desista de ter uma companheira dedicada. Puxa, não resisti aos recados, não procurem segredos, minhas angústias, lágrimas e tristezas sempre tiveram uma existência secreta, uma morta pode ser contraditória, no lugar para onde vou espero que não me cobrem coerência.
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Lindo, Rô. fantástico. Profundo e triste! Mas fiquei curiosa para saber por que uma jovem, sim, ela ainda parece jovem e apaixonada pelo marido e filhos perdeu o amor pela vida? o que a levou fazer isso?!
ResponderExcluiragora, tem que ter continuação e nos contar a origem.
bjos