quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Um vento de prosa

Não suporto a ideia de explicar o processo de criação literária, mas cabe uma "nota de altopé" (risos). João Carrascoza, excelente contista e meu incentivador literário, sugeriu um texto a partir do encontro inusitado com o autor de meu livro predileto: veja o resultado da prosa com Graciliano Ramos:


Aquele vestuário urbano não combina com a aridez do sertão nordestino. Não se recorda da viagem até lá. Despreza qualquer tipo de explicação, há muito se sente marionete do destino. Muito alto, um pouco corcunda, de óculos escuros, o rosto jovial quase coberto por uma barba espessa e totalmente negra que contrasta com a pele branca torturada pelo sol escaldante. Os habitantes locais miram curiosos essa figura esguia com um bloco de anotação trêmulo e estrangeiro. O relógio empoeirado da delegacia denuncia o fim da tarde, ondas de urubus, até pouco tempo atrás em voos preguiçosos, agitam-se perto de uma gigantesca nuvem cinzenta estática. Muitos olham para o alto, estão incrédulos, desacreditam dos temporais e das previsões meteorológicas, vivem como podem o hoje, não esperam nada do céu muito menos da terra, não há nem recordação do barulho dos pingos em queda dos telhados. Poucos minutos após um vendaval alaranjado, meninos mais novos, meninos mais velhos e meninos idosos buscam abrigo no bar mais próximo. Resolvo segui-los, entro no ambiente e tropeço em uma cachorra magrela, pulguenta e manca, de olhar pedinte. Me desequilibro, busco apoio na mesa de madeira gasta e por pouco não derrubo a máquina de escrever antiquíssima e o copo pequeno de café frio. Um resmungão alto, peço desculpas insistentemente, lembro daquele senhor escritor de expressão sisuda, poucas rugas, cigarro imponente na mão esquerda. Memória traiçoeira e peçonhenta, como é o sobrenome do meu interlocutor? Mesmo ambos aborrecidos, começamos um diálogo frívolo. Ele estranha meu sotaque, o excesso de eses, falo da infância na periferia da Grande São Paulo. Ramos!!! Quando a prosa chega na literatura, somos sempre interrompidos por outros personagens. O teto improvisado do local não suporta a violência da tempestade, goteiras formam um coro da natureza. Uma enxurrada de perguntas: Por que raios você não poupou a Baleia? Um trovão fala mais alto, não compreendo toda sua frase, com exceção de: “os homens ladram, todos somos essencialmente feras”. Reclamo da privação de solidariedade, da esterilidade de bons sentimentos do seu livro ilustre. Uma manada de soldados amarelos dificulta a audição: “final feliz é um escapismo dos tolos para os mais tolos” ouço em meio a uma discussão sobre memórias do cárcere dos guardas da ordem e do progresso. O desespero de alguns moradores com a perda de seus imóveis improvisados impede a compreensão exata de mais um dialogo rápido, certeiro. Após a trégua das nuvens a terra rachada embebida da tempestade torrencial gera uma fisionomia desoladora àquele espaço esquecido. O velho Graça franze a testa: “Não há refúgio seguro para a Angústia” diz antes de um último suspiro do vento esparramar todo o trabalho da sua obra em construção. “Um mundo coberto de folhas”, resigna-se.

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